O que é a varredura no lado do cliente (client-side scanning): a mudança no Chat Control da UE e como ela afeta você

Illustration of a mail envelope icon with an earth-lock badge on a blue gradient background with wave patterns, symbolising secure email protection against EU Chat Control surveillance

Sumário

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Imagine que seu celular analisasse todas as mensagens, fotos e arquivos que você compartilha antes mesmo de você apertar “enviar”.

Essa é a ideia por trás da varredura no lado do cliente (client-side scanning, CSS). A tecnologia ainda não é obrigatória por lei na Europa. No entanto, em 9 de julho de 2026, o Parlamento Europeu chegou perto o suficiente para deixar claro o rumo das discussões: a maioria dos deputados votou contra a retomada da varredura de mensagens sem ordem judicial, mas a proposta avançou mesmo assim. A regulamentação permanente, que poderá tornar obrigatória a varredura diretamente nos dispositivos, volta à pauta em setembro de 2026.

E algumas empresas de tecnologia nem precisam esperar uma exigência legal. Elas já fazem esse tipo de varredura de forma voluntária há anos.

Neste artigo, você vai entender:

  • O que é a varredura no lado do cliente (CSS) e como ela funciona na prática
  • Quais leis da União Europeia e do Reino Unido estão impulsionando essa tecnologia
  • O que a votação de 9 de julho de 2026 realmente mudou e o que não mudou
  • Quais empresas já analisam suas mensagens
  • Como proteger sua privacidade

Vamos lá.

O que é a varredura no lado do cliente?

A varredura no lado do cliente (client-side scanning, CSS) consiste em analisar o conteúdo das suas mensagens diretamente no seu dispositivo, antes mesmo de a criptografia entrar em ação.

Seu celular ou computador verifica textos, imagens e arquivos, comparando esse conteúdo com um banco de dados de materiais sinalizados. Se houver alguma correspondência, isso é denunciado.

Uma forma simples de entender a diferença é pensar na criptografia de ponta a ponta como uma carta lacrada em um envelope que só o destinatário consegue abrir. Já a varredura no lado do cliente lê essa carta enquanto você ainda está escrevendo. O envelope continua lacrado, mas sua privacidade já foi comprometida.

Os defensores dessa tecnologia afirmam que ela é necessária para detectar material de abuso sexual infantil (CSAM, child sexual abuse material). Já pesquisadores da área de privacidade argumentam que ela cria um sistema de vigilância em massa que afeta todas as pessoas, inclusive você.

Antes de avançarmos, vale destacar uma diferença importante. Hoje, a maior parte das varreduras realizadas na Europa acontece no lado do servidor (server-side), ou seja, as mensagens são analisadas depois que chegam ao provedor e antes de serem criptografadas ou quando não estão protegidas por criptografia de ponta a ponta. A varredura no lado do cliente funciona de outra forma e é considerada mais invasiva, porque transfere essa análise para o seu próprio dispositivo.

Tenha essa distinção em mente, pois as duas propostas conhecidas como “Chat Control” na Europa tratam de abordagens diferentes desse tipo de monitoramento.

Como funciona a varredura no lado do cliente?

Existem duas abordagens técnicas principais. Em ambas, a análise acontece no seu dispositivo, antes que a mensagem seja criptografada e enviada.

Correspondência por hash perceptual

Seu dispositivo converte uma imagem em uma impressão digital (chamada de hash) e a compara com um banco de dados de imagens ilegais conhecidas. Se houver uma correspondência, o conteúdo é sinalizado e reportado automaticamente. Nenhuma pessoa vê a imagem, a menos que o sistema gere um alerta.

Ao contrário de uma verificação tradicional de integridade de arquivos (checksum), um hash perceptual continua funcionando mesmo que a imagem seja redimensionada, recortada ou recomprimida. Esse é justamente o objetivo: identificar a mesma imagem mesmo depois de ela ter sido modificada. É também por isso que essa técnica pode ser aplicada com facilidade a conteúdos que não têm relação com CSAM.

Atualmente, três sistemas dominam esse cenário.

PhotoDNA (Microsoft)

A ferramenta mais amplamente utilizada desse tipo. Ela converte imagens em uma assinatura baseada em uma grade em tons de cinza e a compara com bancos de dados de hashes mantidos por organizações como o NCMEC.

A Microsoft licencia o PhotoDNA para diversas empresas, o que explica por que ele está presente em plataformas que não desenvolveram sua própria tecnologia.

CSAI Match (Google)

O sistema do Google, desenvolvido para vídeos, e não para imagens estáticas. Ele cria uma impressão digital do conteúdo em vídeo e a compara com materiais já conhecidos. Quando encontra uma correspondência, encaminha o caso para filas de revisão humana.

PDQ (Meta)

O algoritmo de hash perceptual desenvolvido pela Meta, disponibilizado como código aberto juntamente com uma versão equivalente para vídeos. Por ser público, ele se tornou uma implementação de referência para plataformas que desenvolvem seus próprios sistemas de detecção.

Classificadores de IA

A segunda abordagem usa modelos de aprendizado de máquina para detectar conteúdo ilegal até então desconhecido, analisando padrões visuais e textuais.

O problema? Os classificadores de IA apresentam altas taxas de falsos positivos. Fotos inocentes, como imagens médicas, fotos de família ou até mesmo obras de arte, podem ser sinalizadas por engano.

A correspondência por hash pergunta: “Já vimos exatamente este conteúdo antes?” Um classificador pergunta: “Isso se parece com o tipo de conteúdo que estamos procurando?” A segunda pergunta é muito mais útil para quem controla o modelo e muito mais perigosa para você.

Fluxograma de duas colunas que ilustra a varredura do lado do cliente, comparando a correspondência de hash perceptual com classificadores de IA, mostrando entradas, etapas de processamento, resultados e riscos de falsos positivos para cada abordagem.
Comparação lado a lado das duas abordagens de varredura no lado do cliente: correspondência por hash perceptual (usada pelo Microsoft PhotoDNA, Google CSAI Match e Meta PDQ) e classificadores de IA/aprendizado de máquina. Ambas analisam o conteúdo antes da criptografia. Fonte: análise técnica da Mailfence.

Por que nenhuma das duas abordagens pode ser limitada a um único propósito

As duas abordagens compartilham um problema mais profundo. Depois que a infraestrutura de varredura passa a existir no seu dispositivo, nada impede, do ponto de vista técnico, que ela seja ampliada.

Ela pode ser reutilizada para sinalizar discursos políticos, conteúdos religiosos ou qualquer outro material que um governo decida considerar “questionável”.

A Internet Society alerta que a varredura no lado do cliente (CSS) reduz a segurança e a privacidade de usuários que cumprem a lei, sem garantir que ela alcance o objetivo de aplicação da lei para o qual foi criada. Já a Electronic Frontier Foundation (EFF) demonstrou por que é tecnicamente impossível desenvolver um sistema de varredura que possa ser usado exclusivamente para um único propósito. Depois que esse mecanismo existe, seu alcance passa a ser uma decisão de política pública, e não mais uma questão de engenharia.

O ecossistema de varredura do lado do cliente (CSS) é conduzido quase inteiramente por algumas grandes plataformas e governos, que decidem o que é varrido, como funciona a comparação e quando o conteúdo é sinalizado. Não existe nenhum órgão de padronização neutro que supervisione esses sistemas. Em vez disso, o CSS depende de ferramentas proprietárias implementadas sob pressão regulatória, com a sociedade civil e especialistas técnicos limitados a levantar preocupações sobre vigilância, censura e desvio de objetivos.

Chat Control da UE: a legislação que impulsiona a varredura nos dispositivos

A iniciativa da União Europeia para ampliar a varredura de mensagens, apelidada de “Chat Control” por seus críticos, representa a ameaça mais significativa às comunicações criptografadas no continente. Mas, para entender esse debate, é essencial distinguir duas legislações diferentes.

Chat Control 1.0: a derrogação voluntária

Em 2021, a União Europeia introduziu uma exceção temporária às regras da ePrivacy. Ela permitiu que plataformas de tecnologia analisassem voluntariamente mensagens não criptografadas em busca de CSAM.

Serviços como Gmail, Facebook Messenger, Skype, Snapchat e as mensagens do Xbox aderiram à medida. A exceção foi prorrogada em 2024, estendendo sua vigência até 3 de abril de 2026.

É importante entender o que esse regime representa: varredura no lado do servidor de conteúdo não criptografado, realizada a critério do provedor. Não se trata de varredura no lado do cliente. E a palavra “voluntária” merece atenção. A decisão cabe ao provedor do serviço. Não a você, nem a um tribunal.

Chat Control 2.0: a proposta da CSAR

Em maio de 2022, a Comissão Europeia apresentou uma proposta de regulamentação permanente chamada Child Sexual Abuse Regulation (CSAR). Os críticos rapidamente a apelidaram de Chat Control 2.0.

Essa proposta vai muito mais longe. Ela obrigaria os provedores a realizar varreduras com base em “ordens de detecção” administrativas e, no texto original, isso se estende aos serviços com criptografia de ponta a ponta por meio da varredura no lado do cliente (client-side scanning).

É essa proposta que importa quando o assunto é CSS. A quinta rodada de negociações tripartites terminou em 29 de junho de 2026 sem acordo. As negociações serão retomadas em setembro de 2026, e o principal impasse continua o mesmo: varredura em massa, a critério da indústria, ou detecção direcionada, determinada por um juiz contra suspeitos reais.

Como estão as coisas agora

Em 26 de março de 2026, o Parlamento Europeu votou por 311 votos a 228 contra a prorrogação do regime voluntário. O marco legal expirou em 3 de abril de 2026.

Em seguida, o processo legislativo seguiu seu curso. Em 7 de julho, o Parlamento aprovou um procedimento de urgência por 331 votos a 304. A votação propriamente dita ocorreu em 9 de julho, último dia de votações antes do recesso de verão, quando cerca de 112 eurodeputados já estavam ausentes.

O resultado foi um paradoxo. 314 eurodeputados votaram pela rejeição da prorrogação. 276 votaram por mantê-la, e houve 17 abstenções. Mais eurodeputados votaram contra do que a favor. No entanto, a rejeição em segunda leitura exige maioria absoluta de todos os membros do Parlamento, ou seja, 361 votos. A proposta ficou 47 votos abaixo desse número e, por isso, o texto do Conselho permaneceu em vigor por padrão.

Com isso, a varredura de mensagens não criptografadas sem ordem judicial voltou a ser legal até abril de 2028, ou até que uma regulamentação permanente a substitua.

Gráfico de barras horizontais mostrando a votação do Parlamento Europeu sobre o Chat Control 1.0, em 9 de julho de 2026: 314 deputados votaram contra, 276 votaram a favor e 17 se abstiveram, com uma linha vertical tracejada no número 361 indicando a maioria absoluta necessária para bloquear a medida.
A maioria dos eurodeputados que participou da votação foi contra a prorrogação, mas a proposta de rejeição ficou 47 votos abaixo da maioria absoluta de 361 votos exigida na segunda leitura. Fonte: registros de votação do Parlamento Europeu, 9 de julho de 2026.

Dois pontos mostram com clareza onde está o centro de gravidade do Parlamento. Um deles restringiria a varredura a suspeitos identificados pelo Judiciário. A proposta recebeu 322 votos a favor e 255 contra, mas ainda assim não alcançou o número necessário para ser aprovada. O outro foi aprovado e exclui expressamente as comunicações protegidas por criptografia de ponta a ponta do escopo do Chat Control 1.0.

Na prática, isso significa que WhatsApp, Signal e Telegram estão agora formalmente fora do alcance do regime voluntário. Esse é um sinal importante em favor da criptografia, mas é preciso deixar claros os seus limites: essa proteção se aplica apenas a esse processo legislativo. A CSAR continua sendo a proposta por meio da qual obrigações de varredura no lado do cliente (client-side scanning) podem alcançar serviços com criptografia de ponta a ponta. Trata-se de uma vitória tática em uma frente, não de uma solução definitiva.

Há ainda outro ponto importante. Os provedores que continuaram realizando varreduras entre abril e julho fizeram isso sem qualquer base legal na União Europeia, e a votação de julho não regulariza retroativamente esse período.

Apesar dessa incerteza jurídica, Google, Meta, Microsoft e Snap já haviam informado que continuariam analisando mensagens privadas.

Enquanto isso, a regulamentação permanente da CSAR continua em negociação, com previsão de retomada das discussões em setembro de 2026. É nesse processo que governos da Europa e do Reino Unido seguem defendendo a adoção obrigatória da varredura nos dispositivos, que também poderá alcançar comunicações protegidas por criptografia de ponta a ponta.

Infográfico com linha do tempo vertical que mostra seis marcos importantes do Chat Control da UE de 2021 a julho de 2026, com indicadores codificados por cores para eventos aprovados, rejeitados e retomados por questões processuais.
Linha do tempo da legislação europeia sobre o Chat Control, de 2021 a julho de 2026, mostrando a adoção da medida, as propostas apresentadas, as prorrogações, a rejeição pelo Parlamento em março de 2026 e a retomada processual do regime de varredura voluntária. Fonte: registros de votação do Parlamento Europeu e documentação do Conselho da União Europeia.

A Online Safety Act do Reino Unido e a varredura nos dispositivos

A União Europeia não está sozinha. A Online Safety Act 2023, do Reino Unido, adota uma abordagem paralela e, em alguns aspectos, vai ainda mais longe.

O que a Ofcom pode exigir

A lei concede à Ofcom, órgão regulador das comunicações do Reino Unido, o poder de exigir que plataformas adotem “tecnologia credenciada” para detectar conteúdos. Defensores da privacidade alertam que isso pode significar a varredura em dispositivos, como celulares, antes que as mensagens sejam criptografadas.

Em dezembro de 2025, o governo classificou o cyberflashing e os conteúdos que incentivam a automutilação como infrações prioritárias nos termos da lei. As regulamentações entraram em vigor em janeiro de 2026, desencadeando obrigações mais rigorosas de detecção de conteúdo.

O poder para obrigar a realização de varreduras já está previsto na legislação. O que ainda falta é a estrutura operacional. Até que a Ofcom publique seu modelo de credenciamento, esses poderes permanecem inativos, mas continuam existindo.

Vale destacar o contraste: enquanto a União Europeia acaba de excluir a criptografia de ponta a ponta do escopo de seu regime voluntário, o Reino Unido já aprovou poderes que podem alcançá-la.

Como o Signal, o WhatsApp e a Apple reagiram

Tanto o Signal quanto o WhatsApp afirmaram que deixariam o Reino Unido em vez de implementar a varredura nos dispositivos (on-device scanning).

A Apple desativou o recurso Advanced Data Protection para usuários do Reino Unido em 21 de fevereiro de 2025, depois que o governo, usando os poderes previstos na Investigatory Powers Act, exigiu acesso por meio de uma porta dos fundos (backdoor) aos dados criptografados do iCloud. Em vez de enfraquecer sua criptografia, a Apple optou por desabilitar o recurso no país.

A tensão fundamental é clara. Não é possível analisar mensagens criptografadas sem quebrar a criptografia ou analisar o conteúdo antes que ele seja criptografado. E ambas as opções comprometem o modelo de segurança..

Quais empresas já analisam suas mensagens?

Diversas grandes empresas de tecnologia já analisam suas comunicações pessoais e não apenas publicações em redes sociais ou mensagens em aplicativos de chat. Essa análise também abrange e-mails, chats em serviços de nuvem, conversas em plataformas de jogos e mensagens diretas.

Veja quem faz isso, quais tecnologias utiliza e o que isso significa para você.

Google

Verifica: Gmail, Google Chat. Utiliza: PhotoDNA e seu próprio sistema CSAI Match

Se você usa o Gmail para correspondência pessoal, suas mensagens não criptografadas estão sujeitas ao regime que voltou a vigorar em 9 de julho. O Google disse que vai continuar fazendo a varredura.

Meta

Verifica: Facebook Messenger, mensagens diretas do Instagram. Utiliza: PhotoDNA e seu sistema PDQ exclusivo

A Meta analisa as plataformas em que a criptografia é opcional ou inexistente. As mensagens diretas do Instagram e as conversas no Messenger sem criptografia de ponta a ponta ativada podem ser lidas e, portanto, analisadas.

Microsoft

Verifica: mensagens do Outlook, Skype e Xbox. Utiliza: o PhotoDNA, que a própria empresa desenvolveu

A Microsoft desenvolveu a ferramenta de comparação de hash mais utilizada do setor e a aplica em todos os seus próprios serviços para consumidores, incluindo o e-mail do Outlook.

Snap

Verifica: mensagens do Snapchat Utiliza: ferramentas de comparação de hash

O fato de o Snapchat ser um aplicativo de mensagens efêmeras não o isenta disso. As mensagens são verificadas antes de desaparecerem.

Digitalizadas x não digitalizadas: como estão suas mensagens

ServiçoO que foi digitalizadoTecnologiaIsso está dentro do escopo do Chat Control 1.0?
Gmail / Google ChatE-mails e bate-papos sem criptografiaPhotoDNA, Partida da CSAISim
Messenger / Mensagens diretas do InstagramMensagens não criptografadasPhotoDNA, PDQSim
Outlook / Skype / XboxMensagens não criptografadasPhotoDNASim
SnapchatMensagensComparação de hashSim
WhatsApp / Signal / TelegramNada (E2EE)*Não, está expressamente excluído desde 9 de julho de 2026
MailfenceNadaOpenPGP E2EENão, o conteúdo da mensagem é inacessível por padrão

A exclusão dos serviços com criptografia de ponta a ponta se aplica apenas ao regime voluntário. A proposta de regulamentação permanente da CSAR ainda pode impor obrigações de varredura no lado do cliente (client-side scanning) a plataformas com criptografia.

*Há um debate em andamento e algumas alegações sobre a análise de mensagens privadas no WhatsApp. O WhatsApp afirma publicamente que não pode ler mensagens protegidas por criptografia de ponta a ponta e se opõe a leis que exijam a varredura de todas as conversas, seja no lado do cliente ou no lado do servidor. Concorrentes e alguns comentaristas afirmam o contrário.

Como sair do ecossistema da varredura no lado do cliente

A maioria das pessoas presume que a varredura de mensagens acontece apenas em aplicativos de conversa ou redes sociais. Na prática, ela já alcança e-mails, chats em serviços de nuvem, conversas em plataformas de jogos e qualquer serviço em que as pessoas troquem conteúdo.

Sair desse ecossistema significa optar por serviços que não analisam suas comunicações pessoais.

1. Escolha serviços que não dependem da análise de conteúdo

Algumas plataformas analisam suas comunicações porque seu modelo de negócios depende da inspeção do conteúdo dos usuários. Outras simplesmente não fazem isso.

Serviços que implementam criptografia de ponta a ponta de verdade não conseguem analisar suas mensagens, porque não têm acesso a elas. Essa é uma característica técnica, não uma promessa de marketing. A Mailfence aplica esse princípio ao e-mail, e é por isso que suas mensagens não são inspecionadas.

A Mailfence não analisa suas mensagens criptografadas porque não pode. A verdadeira criptografia de ponta a ponta significa que nem mesmo o provedor do serviço tem acesso ao conteúdo das suas mensagens. Isso não é uma política que possa ser alterada discretamente no próximo trimestre. É uma característica da arquitetura do sistema.

Nossos servidores estão localizados na Bélgica, sob a proteção do GDPR e da jurisdição belga. Dá uma olhada no nosso relatório de transparência e no nosso “warrant canary” para saber o que isso significa na prática.

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2. Escolha um provedor cujo modelo de negócios não dependa dos seus dados

Grandes plataformas financiadas por publicidade analisam mensagens porque dependem de dados comportamentais. Serviços focados em privacidade não.

A jurisdição também faz diferença. Um provedor sediado na Bélgica está sujeito ao GDPR e à legislação belga de proteção de dados, que impõem limites rigorosos à forma como o conteúdo das suas mensagens pode ser reutilizado. Esses provedores não podem simplesmente decidir usar esse conteúdo para varreduras em larga escala ou criação de perfis sem uma base legal clara e sem cumprir as regras de limitação de finalidade e os direitos dos usuários.

Essa é uma proteção mais robusta do que uma simples promessa nos termos de uso.

3. Use criptografia de ponta a ponta de verdade

A criptografia de ponta a ponta de verdade só te protege quando seu dispositivo pode criptografar sem interferências. A verificação do lado do cliente muda esse modelo ao inspecionar o conteúdo antes da criptografia, o que significa que, esteja sua mensagem criptografada ou não, ela ainda pode ser lida.

O Mailfence evita isso completamente. Nossa implementação do OpenPGP criptografa seus e-mails no seu aparelho.

Mudar seu e-mail para um serviço que prioriza a privacidade é uma das medidas mais eficazes que você pode tomar. Sua caixa de entrada contém anos de informações pessoais, financeiras e profissionais. Para saber mais, confira nosso guia de segurança de e-mail e as melhores práticas de segurança de e-mail corporativo.

“A pressão pela verificação no lado do cliente demonstra um equívoco fundamental sobre como funciona a confiança na comunicação digital. A privacidade não é um recurso que você pode simplesmente remover e substituir por vigilância. Na Mailfence, acreditamos que suas mensagens pertencem a você, e nenhum governo ou algoritmo deveria lê-las antes de você clicar em ‘enviar’.” – Patrick De Schutter, cofundador da Mailfence

Considerações finais sobre a varredura no lado do cliente

Quando o seu dispositivo passa a analisar o que você escreve antes de criptografar a mensagem, a diferença entre uma conversa privada e uma conversa monitorada deixa de ser uma questão técnica e passa a ser uma questão política.

A votação de 9 de julho não cruzou essa linha. Ela fez algo mais sutil e, possivelmente, mais preocupante: mostrou que uma medida anteriormente rejeitada pela maioria dos eurodeputados pode sobreviver por causa de um requisito processual, durante um período de recesso, e garantir mais dois anos de vigência. A proposta legislativa que realmente pode alcançar o seu dispositivo — a Child Sexual Abuse Regulation (CSAR) — volta à mesa de negociações em setembro de 2026.

Se essas regras entrarem em vigor, haverá um claro “antes” e “depois”, e cada serviço terá de decidir como responder. Algumas plataformas poderão incorporar a varredura no lado do cliente aos seus aplicativos. Outras não. A Mailfence está no segundo grupo, por razões estruturais, e não apenas por uma promessa: quando você utiliza nossos modos de criptografia OpenPGP de ponta a ponta ou baseada em senha, o conteúdo dos seus e-mails permanece inacessível à nossa infraestrutura. Somado à jurisdição belga e ao GDPR, que impõem limites rigorosos ao reaproveitamento de dados, isso torna muito mais difícil introduzir mecanismos de análise ou criação de perfis com base no conteúdo das mensagens do que simplesmente alterar os termos de uso.

Hoje, a varredura já alcança e-mails, serviços de chat, armazenamento em nuvem e plataformas de jogos. A escolha das ferramentas que você usa determina se suas mensagens permanecerão privadas.

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Perguntas frequentes sobre varredura no lado do cliente

A varredura no lado do cliente é a mesma coisa que quebrar a criptografia?

Não. A varredura no lado do cliente (client-side scanning) não quebra a criptografia. Ela a contorna. O conteúdo é analisado no seu dispositivo antes que a criptografia seja aplicada, o que torna a criptografia irrelevante para a proteção da privacidade.

Como evitar a varredura no lado do cliente?

Não é possível desativar a varredura no lado do cliente em plataformas que a implementam. A única forma de evitá-la é usar serviços que não adotem esse mecanismo nem analisem suas comunicações pessoais. No caso do e-mail, isso significa escolher provedores que ofereçam criptografia de ponta a ponta de verdade, como a Mailfence com OpenPGP, em que o conteúdo é criptografado no seu dispositivo e nunca é analisado.

O que é a varredura no lado do cliente (CSS)?

A varredura no lado do cliente (client-side scanning, CSS) é um sistema que analisa suas mensagens, fotos e arquivos diretamente no seu dispositivo antes que eles sejam criptografados. Ela contorna a proteção de privacidade proporcionada pela criptografia de ponta a ponta ao inspecionar o conteúdo em texto simples antes da criptografia. Isso se aplica a todos os canais de comunicação entre pessoas, e não apenas a aplicativos de mensagens.

A varredura no lado do cliente se aplica apenas a aplicativos de mensagens?

Não. Ela pode ser aplicada a qualquer canal de comunicação entre pessoas, incluindo e-mail, chats, serviços de mensagens em nuvem, conversas em plataformas de jogos e mensagens diretas em redes sociais. Se a varredura for obrigatória no dispositivo, o tipo de serviço deixa de fazer diferença.

A varredura no lado do cliente detecta apenas CSAM?

Não. A tecnologia pode ser estendida a outras categorias de conteúdo. Depois que a varredura passa a acontecer no dispositivo, seu escopo pode ser ampliado por meio de mudanças nas políticas ou da adoção de novos modelos de detecção.

A varredura no lado do cliente pode ser usada para vigilância em massa?

Sim. Ela cria um mecanismo técnico para inspecionar comunicações privadas antes da criptografia. Depois que esse mecanismo existe, ampliar seu escopo passa a ser uma decisão de política pública, e não mais um desafio técnico.

O Parlamento Europeu rejeitou o Chat Control?

A maioria dos eurodeputados que participou da votação tentou rejeitá-lo. Em 9 de julho de 2026, 314 votaram contra a prorrogação do regime voluntário de varredura, 276 votaram a favor e houve 17 abstenções. No entanto, a rejeição em segunda leitura exige uma maioria absoluta de 361 votos. Como a proposta ficou 47 votos abaixo desse número, a prorrogação foi mantida. Com isso, a varredura de mensagens não criptografadas sem ordem judicial permanece legal até abril de 2028.

A votação de julho de 2026 significa que minhas mensagens criptografadas podem ser analisadas?

Não. Uma emenda aprovada no mesmo dia exclui expressamente as comunicações protegidas por criptografia de ponta a ponta do escopo do Chat Control 1.0. No entanto, essa exclusão se aplica apenas ao regime voluntário. A proposta permanente da Child Sexual Abuse Regulation (CSAR), que continua em negociação e deve voltar à pauta em setembro de 2026, ainda poderá impor obrigações de varredura no lado do cliente a serviços com criptografia.

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Nihad

Nihad é estratega de conteúdos na área da cibersegurança e proteção de dados e conta com quase uma década de experiência no desenvolvimento de estratégias editoriais e campanhas de marketing para empresas líderes no setor das VPN e da cibersegurança no mercado francês. Ela redige e localiza conteúdos que ajudam os leitores a orientarem-se nas áreas da segurança digital, proteção de dados online e novas tecnologias. Para além da criação de conteúdos, colabora em iniciativas relacionadas com a cibersegurança e a conformidade e presta apoio em áreas como as verificações KYC e AML.

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